OLHOS D’ÁGUA – CONCEIÇÃO EVARISTO

OLHOS D’ÁGUA – CONCEIÇÃO EVARISTO

RESUMO

Em “Olhos D’água” Conceição Evaristo constrói uma série de narrativas, composta por 15 diferentes contos, que se entrelaçam ao relatarem a história de mulheres e homens negros que sofreram e sofrem os mais diferentes tipos de violência e depreciação na sociedade. No entanto, desde o primeiro conto que leva o mesmo título do livro, percebemos que a autora vai além de uma construção vinculada apenas ao sofrimento, ela conduz o leitor a um aspecto da ancestralidade e identidade afro-brasileira que perpassa e em alguns momentos até acalenta a dura realidade de seus personagens.

Alguns dos títulos dos contos que compõe a publicação são construídos pelo nome e sobrenome de seus protagonistas, entre esses, podemos destacar: Ana Davenga, Duzu-Querença, Maria, Luamanda, Di Lixão e Lumbiá. O prefácio que abre o livro sinaliza para a grande marca da autora: a noção de escrevivência. Isto é, a escrita a partir de um lugar de enunciação que é, também, e, sobretudo o da vivência da experiência narrada e o quanto essas escritas negras e femininas encontram-se embaralhadas na tênue linha que tenta separar, sem muito sucesso, a realidade vivida, da ficção sonhada. Desta forma, tudo isso acaba provocando nos leitores, uma identificação imediata com as narrativas lidas e compartilhadas.    Como já descrito, as narrativas do livro são costuradas e umedecidas pelo choro dos personagens, que desabrocham e suplicam, mesmo que em silêncio, do lugar de opressão e submissão que ao longo da história foi designado a eles.

 

CONTEXTO

Sobre a autora

A Autora Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em uma favela de Belo Horizonte em 29 de novembro de 1946. É graduada em Letras pela UFRJ, mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro, quando defendeu a dissertação: “Literatura negra: uma poética da nossa afro-brasilidade” e doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense, desde 2011, após a defesa e aprovação da tese que procurou “investigar a produção de autores africanos de língua portuguesa em diálogo com a literatura afro-brasileira”.

A divulgação de sua produção literária começa basicamente com a publicação de seus escritos nos históricos “Cadernos Negros”, publicação do Grupo Quilombhoje, de São Paulo, onde escreveu poesias e contos. A partir desses escritos construímos o cerne da produção textual da autora, que se constrói a partir da figura de uma mulher que representa seu povo. Ao refazer o caminho de sua ancestralidade feminina, ela encontra e reencontra o sofrimento e as sensações das mulheres e homens negros que enchem seus livros de dor e sensações.

Conceição também é autora de outros livros, o mais conhecido deles, “Ponciá Vicêncio” (2003) já traduzido para o inglês e publicado nos Estados Unidos, esse livro é o marco de sua escrita, talvez urbano-realista.

 

Importância do Livro

            Olhos D’água produz um lindo entrelaçar entre a temática e a poética, isso porque a construção lingüística utilizada pela autora é de um acabamento preciso assim como o amarrar das histórias. As narrativas são permeadas de lágrimas, violência, ancestralidade, fé e sentimentos. A voz não se cala perante os acontecimentos narrados e nem a essência subjetiva da criação literária. Talvez por isso o livro comova e conduza todos os leitores pelo caminho da dor poética.

Período Histórico

Publicada em 2014, pela editora PALLAS, a obra de Conceição Evaristo reúne narrativas que abordam conflitos sociais, históricos e contemporâneos, representando o grito dos escritores negros e de toda uma sociedade que não deveria silenciar nunca. Esse livro é um dos atalhos por onde a voz negra pretende ecoar.

 

ANÁLISE

Sempre houve dentro da literatura, mesmo que de maneira amiúde, um investimento na construção negativa da mulher e do homem negro, entretanto nos últimos tempos um movimento em sentido oposto está crescendo, esse vem sendo liderado pelos autores que fazem parte desse grupo e que passaram a contar suas próprias histórias e de seus semelhantes, na tentativa de recontar e dar um novo sentido a suas vidas. A escrita de conceição Evaristo e a voz que ecoa de “Olhos D’água” é uma aposta que vai de encontro a esse novo sentido e contra as vozes e discursos que até então imperavam no meio literário.

Podemos dizer que o livro de Evaristo divide-se em duas perspectivas diferentes que não se excluem. O conto que abre o livro (Olhos D’água) e o conto que encerra a obra (Ayoluwa, a alegria do nosso povo) traçam uma linha que evoca questões da ancestralidade e identidade, temáticas que muito carecem a autora. Os contos que se encaixam entre essas duas narrativas (Ana Davenga, Duzu- Querença, Maria, Quantos filhos Natalina teve? Beijo na face, Luamanda, O cooper de Cida, Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos, Di lixão, Lumbiá, Os amores de Kimbá, Ei, Ardoca e Agente combinamos de não morrer) estariam imbricados por um aspecto de violência que se multiplicariam em temáticas diversas como estupros, assassinatos, linchamentos, fome e demais mazelas.

Analisando o processo de criação literária de Conceição Evaristo em Olhos D’água notamos que existe uma característica marcante dos contos que integram o aspecto da violência, o “brutalismo poético”, nesse caso compreendido como uma narrativa que apresenta elementos lingüísticos e semânticos duros, mas não menos poéticos. Por isso os leitores mesmo diante de cenas de profundo impacto ficam surpresos pela maneira com a qual a escritora consegue amarrar a violência urbana com tamanha leveza em suas palavras.

Outro recurso estilístico que cabe ressaltar dentro do processo de criação é o recurso de escrita que se baseia na hifenização, o qual podemos denominar, neste caso específico, palavras siamesas: “lava-lava” e “passa-passa” (p. 16); “peitos-maçãs” (p. 22); “gozo-pranto” (p. 23); o nome de uma de suas mais contundentes de sua galeria de personagens, “Duzu-Querença” (p. 31); “flor-criança” (p. 46);  essa estrutura cria uma assinatura estética para a autora. Cabe ainda destacar que os nomes escolhidos para seus personagens também são criados a partir da aglutinação de palavras , “Luamanda”  por exemplo seria formado pelo substantivo lua e o verbo “mandar” (conjugado no presente do indicativo, na terceira pessoa do singular).

Evaristo também utiliza outras fontes para a denominação de personagens que são inspirados nas culturas africanas Banto e Iorubá. Essa influência se estende inclusive para as temáticas das narrativas, pois as referências às narrativas míticas africanas se apresentam ora como poderosas metáforas, ora como alegorias que podem se referir, direta e/ou indiretamente, à diáspora africana no passado brasileiro e seus desdobramentos em nosso cotidiano atual.

Dando ênfase ao conto que abre o livro e o nomeia podemos dizer que, em resumo, o conto narra o questionamento acerca da cor dos olhos da mãe da personagem. Diferente dos demais contos que trazem em sua estrutura uma narrativa em 3ª pessoa, esse é construído em 1ª pessoa, sugerindo um viés de proximidade com uma narrativa autobiográfica. A dúvida sobre a cor dos olhos da mãe surge acompanhada por lembranças e vai ganhando um tom acusatório que leva a personagem a retornar à cidade natal e encarar a figura materna, lançar seu olhar no dela para descobrir a cor de seus olhos. O leitor é convidado a adentrar nas memórias da narradora, conhecer a sua infância e, junto dela, reviver momentos marcados pelas dificuldades e privações de uma vida permeada pela pobreza, ao mesmo tempo em que se encanta pela figura materna que protege, acalenta e encanta, até mesmo nos momentos mais angustiantes.

Ao se lembrar e narrar suas lembranças, a narradora-personagem de “Olhos d’água” evoca as experiências que marcaram sua infância e, neste jogo de recordações, acaba por (con)fundir suas próprias memórias com as lembranças de sua mãe: […] Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento(EVARISTO, 2014, p. 16).

            Recorrente na prosa de Conceição Evaristo, a hereditariedade que ecoa na geração seguinte revela-se um traço forte no que diz respeito à ancestralidade, como um elo estabelecido entre passado e futuro que se concretizará no desfecho do conto, quando em frente à filha, a narradora brinca de buscar, uma na outra, a verdadeira cor de seus olhos: “Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra.  E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho como se fosse uma pergunta que para ela mesma, ou como estivesse buscando ou encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei quando, sussurrando, minha filha falou: _Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos? (EVARISTO, 2011, p. 19).

Ainda nesse jogo de busca pela identidade a autora recorda das mulheres de sua família e de suas ancestrais desde a África. “Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas as mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas as nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias.” (EVARISTO, 2010,p. 18).

Distante dos referencias identitários, das mulheres presentes em sua infância e na memória, pensando nas ancestrais ainda em África, a narradora precisa descobrir a cor dos olhos de sua mãe, pois, somente dessa forma, conseguirá enxergar a si mesma. A indagação acerca da cor dos olhos da mãe é uma forma de voltar às origens e buscar uma identidade perdida, ou desconstruída, pelo afastamento de suas raízes. O tom acusatório com a qual a indagação vai se contornando ao longo do conto confirma a perda de identidade e a necessidade de reencontrá-la ou reconstruí-la.

Pensar nos olhos, e na dúvida sobre eles, é pensar na maneira como a narradora enxerga o mundo e a si mesma, e os questionamentos que percorrem este olhar. Esta hipótese de leitura é confirmada ao se estabelecer entre o seu retorno para casa a um ritual aos orixás: “Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser a descoberta da cor dos olhos de minha mãe” (EVARISTO, 2010, p. 18).  Diretamente ligada à voz autoral, a temática presente no conto dialoga com a identidade negra e com a ancestralidade utilizando-se da imagem dos olhos para simbolizar esta união estabelecida entre passado, presente e futuro, que perpassa desde a avó até a neta.

A poeticidade do conto fica marcada a partir da presença da imagem do olho que se fortalece a cada repetição e que suscita na narradora suas recordações, e no leitor a possibilidade de adentrar nessas memórias.  Por meio do uso da indagação “de que cor eram os olhos de minha mãe?” (p. 171), é que a autora fixa a imagem dos olhos como eixo da narrativa. O conto percorre desde a face histórica, por meio do retorno à mãe e às referências à África e à sabedoria das Yabás, até a cultural e religiosa, por meio das referências aos orixás, abarcando, neste percurso, o aspecto social do ser negro no Brasil

Conceição Evaristo faz alusão aos olhos para trazer à tona questões de ordem social, cultural e religiosa, relacionadas à miséria em que a narradora se encontra na infância e pensando em sua relação com os orixás e com as Yabás ainda em África. Dessa forma, a autora produz um texto em que insere a voz autoral e seu ponto de vista sem abrir mão do trabalho estético em seu texto, fugindo do teor “panfletário”.

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CRÔNICAS PARA LER NA ESCOLA – ZUENIR VENTURA

CRÔNICAS PARA LER NA ESCOLA – ZUENIR VENTURA

RESUMO

O livro “Crônicas para ler na escola” de Zuenir Ventura faz parte da coleção Para ler na escola que foi elaborada a partir de uma tentativa de aproximação do público jovem com grandes nomes da literatura brasileira. Inspirada pelo best-seller Comédias para se ler na escola – do cronista e amigo pessoal de Zuenir, Luis Fernando Verissimo –, a série de livros conta com textos de autores renomados.

Composto por 44 crônicas, além da apresentação e de uma sessão que relata datas e locais de publicação das crônicas antes da compilação, a obra amplia o olhar do leitor ao fazê-lo percorrer diversos caminhos por meio da escrita leve de Zuenir. O autor utiliza do recurso do humor em muitas crônicas como Esse Ziraldo!, Um idoso na fila do Detran, e trata também de assuntos polêmicos como o Bullying, em Intolerância juvenil e o uso de drogas em Geração anfetamina. Também é relevante o diálogo que o autor traça em muitos momentos com escritores que o antecederam no ofício de cronista, levando o leitor a visitar esses espaços ocupados pelo gênero.

 

CONTEXTO

Sobre o autor

            Zuenir Ventura (1931, Além Paraíba, Minas Gerais) é escritor e jornalista há mais de quarenta anos. Trabalhou nos principais veículos de comunicação do país, como os jornais O Globo e Jornal do Brasil e as revistas Visão, Fatos & Fotos, Veja e Época. Foi aluno de Manuel Bandeira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com quem tinha aulas de literatura hispano-americana. Com Cidade partida (1994), um retrato das causas da violência no Rio, venceu o Prêmio Jabuti na categoria Reportagem. Em 2008, lançou 1968, o que fizemos de nós, que retoma uma de suas obras mais conhecidas, 1968, o ano que não terminou (1988). Também escreveu o livro-reportagem Chico Mendes, crime e castigo (2003), entre outros títulos.

 

Importância do Livro

             O livro ganha destaque ao reunir diversas crônicas que em muitos momentos se perderam, devido ao seu meio de suporte e publicação. Proporciona ao leitor, dessa maneira, o contato com um gênero volátil e efêmero que aborda assuntos variados, levando-os a viver ou reviver uma espécie de túnel do tempo durante a leitura.

 

Contexto Histórico

             Publicada em 2012, pela editora Objetiva, a obra de Zuenir Ventura reúne crônicas, selecionadas por Marisa Lajolo, que abordam diversas temáticas como conflitos sociais, históricos e contemporâneos, representando uma parcela da nossa sociedade e os reflexos das manchetes dos jornais que nem sempre remetem a uma boa conjuntura.

 

ANÁLISE

             As crônicas produzidas por Zuenir se articulam entre diferentes tipos de produção às vezes, o assunto está nas entrelinhas das próprias notícias de jornal, em outros momentos as ideias surgem de acontecimentos da vida do autor – como sua estréia na fila de idosos do Detran, o nascimento de sua primeira neta, Alice, ou,  quando o confundiram com o autor Ziraldo –,entretanto as crônicas nunca se tornam meras histórias de sua vida cotidiana. Há também os textos que simplesmente nascem de sua observação da realidade, dotada de lucidez e ironia.

A informalidade do gênero é empregada de maneira brilhante por Zuenir que faz da simplicidade uma das características mais marcantes em suas crônicas. Como observa a professora Maria Lajolo na apresentação, “é como se Zuenir trocasse de lugar com o leitor. […] É como se ele abandonasse temporariamente seu lugar de escritor e se sentasse ao lado do leitor para puxar conversa: ‘Você não leu no jornal de ontem que…

O autor tece bons questionamentos, talvez por ser considerado um dos maiores jornalistas do Brasil, também sabe oferecer ótimas reflexões, porque ao utilizar um tom de conversa ele cativa os leitores com suas crônicas. Versando sobre qual for o assunto – tecnologia, burocracia, preconceito, literatura, praia, vida -, Zuenir sabe alcançar leitores de todas as idades e classes sociais.

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